QUINHENTOS REAIS, O PREÇO DE UMA VIDA

            Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi oficialmente abolida no Brasil. Ainda assim, em pleno século 21, continuamos a nos surpreender com notícias de seres humanos sendo comprados e vendidos como mercadoria. O caso mais recente ocorreu em Rio Branco, no Acre, onde uma mulher foi presa tentando comprar, por R$ 500, um bebê que nem sequer havia saído do ventre materno. A acusada teria assediado a futura mãe ao longo da gravidez, insistindo para comprar o bebê logo após o nascimento e oferecendo-se até mesmo para pagar exames médicos a fim de garantir que sua “compra” estivesse em bom estado de saúde. Perturbada pelo assédio, a mãe relatou o caso à polícia e foi orientada a fingir que concordava com o negócio para que então pudesse ocorrer a prisão em flagrante. E foi o que aconteceu. A mulher deverá ser indiciada pelo crime de tráfico de pessoas e a polícia investiga a possibilidade de que ela pertença a uma quadrilha com atuação internacional, especializada no tráfico de crianças.

             Felizmente essa história acabou bem. Inúmeras outras, porém, têm um final diferente. Na maioria das vezes, esses criminosos conseguem realizar seu intento porque escolhem como alvo mães e pais em sérias dificuldades econômicas e sem acesso à informação. Eles se aproximam oferecendo “ajuda” para custear despesas médicas e de parto e garantem que a criança será adotada por uma rica e bondosa família estrangeira. O que os pais não imaginam é que o destino da criança pode ser outro. Para começar, se a suposta família adotiva fosse tão maravilhosa assim, teria recorrido às vias legais de adoção. E, depois, ainda há o risco de que essa família nem exista. Muitos bebês saudáveis são “comercializados” com o horripilante propósito de serem sacrificados a fim de que seus órgãos sejam vendidos para transplantes.

           O acesso à informação é essencial para que essa triste realidade comece a ser revertida. Mães em dificuldades devem saber que possuem o direito de procurar as Varas da Infância e da Juventude e solicitar que o filho que elas não podem criar seja mantido em uma instituição pública. Essa pode ser uma situação temporária, durante a qual as mães continuam tendo acesso aos filhos, podendo reavê-los quando tiverem condições para tanto. Ou então, se acharem que essa é melhor alternativa, poderão entregar as crianças para adoção – mas de forma segura, sob a supervisão do Estado, conforme determinam a lei e a ética. No dia em que informações como essas forem acessíveis a todos, talvez possamos ter esperanças de que práticas escravistas desse tipo realmente acabem no Brasil.